Tuesday, 21 November 2006

Autópsia


A saudade aperta, o coração desperta
Até chegar à meta a certeza é incerta
Na pulsão de viver vou tentando esquecer
As memórias do passado que arrasto para o lado
Conto todos os segundos para te poder rever
Oiço o som das chaves, parece que ainda te estou a ver
A entrar naquela porta mas eu sei que já não voltas
Choro este fado que o meu corpo não suporta
A mente viaja quando a luz apaga
Sinto a tua voz a remexer na minha chaga
Hoje estou mais calma, já controlo a minha raiva
A dor tornou-se força e o sofrimento foi guardado
Voltei a pensar em tudo aquilo que me fez crescer
Tenho estes acordes para te poder agradecer
Hoje fui transparente
A minha autópsia terminou
O tempo tudo cura mas a saudade ficou

(BT)

Miss L

Ao fim de tanto tempo percebi que tenho medo de ti
Da forma que me olhas e me pensas
Que não me vejas da mesma forma
Encaro o teu silêncio como desistência da nossa viagem
Eu saí nesta estação e tu continuaste
E o teu rasto perdi
Não te vou dizer que não penso em ti
Penso em ti todos os dias
Olho a tua fotografia todos os dias
Lembro-me de nós todos os dias
E imagino a tua vida sem mim
Simplesmente não tenho coragem de te ligar
E ouvir a tua voz despreocupada do outro lado
Aquela voz que te conheço quando te desaponto
E eu pequenina deste lado
A sublimar o que sinto
E a elevar-me ao mínimo suportável para que me oiças sem pensar
E me convides para mais um copo no sítio do costume
Ao fim de horas e de copos
Muitos copos
Eu agarro em ti
Atrai-me aquilo que és, que não foste quando precisei
Porque sei que errei
Mais uma vez?
Estou de novo lá no fundo
E nunca te dou espaço para lá estares também
E comigo nunca estás mais do que eu

- 2003-

Quarentena

Eu sei a quem pretendo enganar
Com sorrisos e gargalhadas e palavras e gestos
Que já adoptei meus
E considero teus
Recriei-os por ti e para ti
Para que eu te chegasse e sobrasse e fosse o que querias
Por meio de esquemas e mentiras...
Aceitaste, gostaste e comentaste
Que me tinha tornado acessível
Previsível
De fácil trato para que não te dê trabalho a adivinhar
E suportar
Aquilo que eu nunca suportei
E errei...
Errei ao pensar que a minha postura me recriaria
E me atiraria... para aquilo que te queria ser...
Olhei-me tantas vezes no espelho
Opaca
Estigmatizada
Alimentei-me de clichés sem nunca os digerir
Engoli feridas que não pensei estar a inflingir
A mim, a ti, a eles
Tantas vezes...
O plano que delineei ao longo destes meses
E nele voei
Voei
Derreti a minha realidade
E não pensei mais do que uma vez
E aqui estou entregue a mim
Novamente em quatro cantos
...
Em quatro cantos.

- 2002-

Saturday, 18 November 2006

Instável

Dia novo no céu cinzento escuro, treze anos completos cheios de nada, a cave que me ensurdeceu dali para o futuro, de palcos e luzes em vãos de escada. Bairro mudo em sorrisos desfeito para treze anos em que tudo era perfeito, caminhos constantes em redoma verde prata, na realidade vendida que ao meu sonho escapa . Hoje parti e esqueci, já faz parte do passado. Não sou instável e cumpri o valor que me foi ensinado. - 2002-
Sinto-me tal e qual uma marioneta num teatro de personagens descabidas, utopias desmedidas, contradições mal resolvidas que não posso controlar. - 2001-
Mergulhei em tuas memórias, memórias que tão secretamente guardas para ti sem que ninguém pudesse ver, saber... um bocadinho de ti sequer.
Reavivaste-me momentos que preferia esquecer, outros que ignorava saber, um tudo ou nada de bom que não cheguei a perceber, em todas as minhas pequenas grandes contradições que pareço não saber controlar, às vezes sinto-me tal qual uma criança com um brinquedo novo... mas não será isso que tu és, uma criança que descobre que o fogo dói, mesmo quando te avisaram que assim o é? Pois foste avisado da tua consciência pela tua consciência e mesmo assim tropeçaste naquela pedra que há tanto tempo te atravessa o caminho... será teimosia, essa teimosia de que tanto falas e ostentas ou mera fraqueza de um corpo que esqueceu afecto...
Dás-me alento, tão frágil que sinto que não consigo agarrá-lo e vejo-te escapar por entre os meus dedos, desconfiada... de tudo o que sinto pois não posso estar a senti-lo, não quero ou não consigo, preciso de ti! Preciso tanto de ti como de mim que não me tenho e tenho tanto medo de te arrancar de onde pertences para te envenenar com utopias desmedidas e palavras que não podes soletrar... não podes. Não enquanto o sol que agora se ri para mim me der raiva, não enquanto a noite for tão escura como eu que me sento por entre luzes de velas e cheiro a incenso para estar só comigo e a roupa que dispo for para me obrigar a suportar-me tal como sou, sem tirar nem pôr... porque amanhã é outro dia mas eu vou ser igual, vou continuar a mascarar-me e a fugir neste teatro, em cenários imensos e personagens descabidas que me repugnam...
Não vou parar por aqui, vou continuar a espremer-me através de uma caneta descontrolada para um caderno agora meu e teu, pois também já cá estás, tão solto entre os meus braços e folhas quadriculadas...
Sabes? Olho-me ao espelho e por vezes vejo-me desintegrar em mil, todas tão diferentes mas tão iguais, como peças de xadrez em xeque-mate. Tenho tanto para dizer que mil não chegam, quando uma deveria chegar.
Mergulhei em tuas memórias... tuas? Menti-te. Lembras-te de quando te ralhei e estava afinal a ralhar para mim própria? As memórias eram as minhas. Shhh... não digas a ninguém... era para saberes que os maus também se queimam... - 2001-
Onde estás? Já te vi... Não gostei. Pões-me fora de mim. Como estás? Que senti... não sei. Quero tudo de ti. O teu eu? Não é mais meu. Não será. Para mim morreu. - 2000-